As Sonatas de Emília Nadal

As Sonatas de Emília Nadal

A designação sonata tem a montante duas origens. A sonata que descende da suite e a “forma sonata”. Estes dois usos da palavra estão presentes nas Sonatas de Emília Nadal. Importa pois explicar resumidamente os dois conceitos para que do olhar para a obra se perceba a correspondência ao título da mesma.

Em primeiro lugar, o termo “sonata” oriunda do latim na expressão sonare. As primeiras sonatas eram peças instrumentais, com a policolaridade como característica principal, isto é, várias melodias escritas de forma horizontal, criando timbres e dinâmicas diferentes. Mais tarde esta policolaridade dá origem a uma pluralidade de andamentos e cada um desses andamentos emprega um processo de melodia acompanhada, utilizando por vezes o baixo continuo (sifra), de modo a dar ao intérprete alguma liberdade e facilitando a rapidez de escrita.

Assim, já no período barroco, chamamos suite a este conjunto de andamentos que normalmente eram em forma de dança. As suites têm, no seu conjunto, como única ligação entre os andamentos a tonalidade, isto é, a tónica é sempre a mesma, existindo apenas alterações no movimento rítmico.

Com o classicismo, desaparece a unidade tonal para darmos importância ao conteúdo, unificando as ligações entre os andamentos. O mesmo processo de escrita passa a ser utilizado noutras formações de instrumentos musicais, muitas vezes adquirindo outro nome como sinfonia, concerto, quarteto, etc. Claramente, a sonata deixa de ser uma peça de entretenimento para se tornar numa epopeia ou romance.

Assim, é aqui que eu enquadro as obras “sonata” de Emília Nadal. São andamentos com elementos de continuidade e ruptura. É uma sonata do tipo romântica quase Beethoveniana.

Contudo, no fim do romantismo o termo sonata entra em decadência, Chopin escreve apenas três sonatas, Liszt uma, enquanto Beethoven havia escrito trinta e duas e Haydn cinquenta e quatro. O termo volta a aparecer no século XX com novos motivos e uma nova estética. A título de exemplo encontramos as sonatas neoclássicas de um Prokofiev.

Em segundo lugar, a “forma sonata” corresponde a um ou dois andamentos da sonata, concerto, quarteto, etc. Esta forma é nada mais que um processo de composição organizado por:

-Exposição onde se propõe um tema ou motivo, na tonalidade principal;

-Desenvolvimento, capacidade de levar tema a tonalidades mais distantes;

-Reexposição do tema noutra tonalidade ou na tonalidade dominante;

-Coda que é a conclusão que pode ser o tema ou outro motivo numa espécie de reminiscência.

Nas Sonatas de Emília Nadal também encontramos o conceito de “forma sonata” dado que elas apresentam um tema e o seu desenvolvimento. Poder-se-ia designar esta obra como demonstrando um egocentrismo romântico e ao mesmo tempo racional clássico, ou dito de outro modo, um encontro entre interioridade e exterioridade. Uma interioridade feminina representada pela cor a par de elementos da natureza, que nos transportam ao humanismo Beethoveniano.

Em suma, Emília Nadal assume uma motivação intrínseca de grande generosidade artística e humana quanto aos conteúdos representados na vida e obra e uma motivação extrínseca em relação aos objectos físicos da natureza. Concretizando-se numa hierarquia de valores humanos, servindo-se deles não só como uma confissão privada, mas mais uma dádiva a toda a humanidade, a linearidade, o traço, a personalidade da sua obra (falo apenas das sonatas), tem tanto de original como de equilíbrio e fascínio.

Raul Pinto

Plast&cine Emília Nadal – Pintura de Memórias